terça-feira, 17 de março de 2009

O peso da Astronomia no futuro da Humanidade

No passado mais remoto, a astronomia contribuiu de forma decisiva para a sobrevivência da humanidade. Quem sabe se, no futuro, não será de novo a astronomia a permitir a sobrevivência da espécie humana.
A astronomia teve um papel relevante na evolução cultural e intelectual do homem. Sendo uma ciência influente em diversas áreas do conhecimento, contribuiu para o desenvolvimento de várias civilizações, em particular da civilização ocidental.
Desde cedo que o Homem se interrogou acerca das suas origens e destino final. Estas preocupações cosmológicas, questões como “De onde vimos?” e “Para onde vamos?,” sempre dominaram, e continuam a dominar o pensamento humano.

O primeiro período da história da Astronomia tem o seu início há dezenas, ou mesmo centenas de milhares de anos. Desde a Pré-História que a observação do céu inquietou o espírito humano. Esta curiosidade parte, por exemplo, dos fenómenos da natureza (então inexplicáveis), e, com o aparecimento dos primeiros mitos e cultos astrais, surge a necessidade de colocar no céu seres sobrenaturais todo-poderosos.
No entanto, muito antes de se colocar certas questões sobre os fenómenos observados, as acções do Homem primitivo eram guiadas apenas pelo seu instinto de sobrevivência. A sucessão dos dias e das noites, por exemplo, terá, naturalmente, atraído a sua atenção.
Com esta necessidade de sobrevivência, surge no Homem (na sua fase nómada) a necessidade de contagem dos tempos, da construção de calendários que permitissem prever com antecedência, a ocorrência de determinados acontecimentos essenciais à sua sobrevivência, como por exemplo os fluxos migratórios de certos animais, ou o amadurecimento de determinados frutos. Antes ainda de inventar a escrita, o Homem aprendeu a conhecer as fases da Lua, constatou a sucessão periódica das estações do ano, apercebeu-se do movimento diurno aparente das estrelas, que noite após noite as trazia de volta, e, percebendo que mantinham as suas posições relativas, “inventou” as constelações, verdadeiros referenciais que lhe permitiam orientar-se.
Mais tarde, o Homem primitivo abandona o modo de vida nómada e torna-se sedentário. Esta mudança trouxe desenvolvimentos ao nível da astronomia, pois a fixação numa determinada região tornou mais fácil o registo de observações sistemáticas, bem como a sua conservação para posterior consulta e análise, sendo este um factor essencial para o desenvolvimento e sofisticação dos calendários mais primitivos. Estes registos são uma das mais antigas formas de escrita.
A partir de determinada época, surgem, para além das questões de sobrevivência, motivações astrológicas e/ou religiosas para observar o céu. A astronomia, a astrologia e a religião ter-se-ão desenvolvido muito proximamente.
É quando nascem, com a mitologia, inúmero espíritos omnipresentes e omnipotentes, que o Homem adquire então consciência da sua pequenez perante o mundo, mas, paradoxalmente, acredita que desempenha o principal papel no palco universal.

É sabido que toda a civilização ocidental tem as suas raízes mais profundas mergulhadas na civilização grega da Antiguidade Clássica. A astronomia não escapou a essa período de transformação cultural e civilizacional. É com esta revolução que surge uma utilização sistemática da geometria, nos métodos adoptados pelos astrónomos gregos. De referir que o que sabemos hoje relativamente ao conhecimento astronómico da época, se deve ao trabalho de Aristóteles. Tales, Anaximandro, Anaxímenes (todos do século VI a.C.) e mais tarde Ptolomeu, merecem também um lugar de destaque no que à astronomia e cosmologia diz respeito.
Por esta altura, com a escola de Tales, a mitologia e a ciência começam a seguir caminhos diferentes. O sobrenatural é retirado das explicações construídas para os diversos fenómenos da natureza, nas quais os deuses passam a ter um papel absolutamente secundário.
1 Modelo cosmológico da Escola de Pitágoras: influências mitológicas, mas trajectórias circulares pela primeira vez.
Numa outra região, surge também, com a Escola Pitagórica, uma concepção matemática do mundo, em que são atribuídas aos número e figuras geométricas, propriedades místicas, que irão conduzir os pitagóricos a uma concepção religiosa do Universo. Para estes, o Universo havia sido criado por uma Divindade Suprema, e o número era a razão de toda a existência. Surgem então os modelos não geocêntricos do Universo, cuja posição central estava destinada à tal Divindade Suprema (motor do Universo).

Com estas duas concepções distintas (da Escolas de Tales e Pitágoras), foram possíveis as primeiras grandes descobertas astronómicas da antiguidade, tais como o reconhecimento da Terra como um corpo celeste isolado no espaço, o da harmonia da esfericidade, o da queda dos graves para o centro da Terra, e ainda o das engenhosas combinações geométricas que permitiam prever as posições planetárias, e que estiveram na origem do complexo sistema geocêntrico ptolemaico.

Surge então, com estes pensadores, uma nova forma de abordar, pensar, reflectir. São os pensadores gregos os primeiros a tentar substituir as velhas e complexas teias “explicativas” mitológicas, por algo mais natural, algo que de alguma forma pudesse estar relacionado com a própria natureza do Universo observado. Esta retirada das características mitológicas do Universo deu origem ao geocentrismo.
Os modelos do Universo foram-se sofisticando com as tentativas de reproduzir o melhor possível os dados de observação disponíveis. Contudo, estes modelos tinham ainda graves falhas, entre as quais: o geocentrismo, (com a Terra rigorosamente imóvel a ocupar o centro do universo); a divisão do universo em dois mundos, (de um lado o cosmos, onde tudo é puro e inalterável, o mundo do éter (a quinta essência) e dos movimentos perfeitos, circulares; do outro, o mundo sublunar da imperfeição e da mudança, o mundo da Terra e dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), o mundo dos movimentos rectilíneos e dos movimentos ascendentes ou descendentes); e ainda o movimento circular uniforme (ou a combinação de movimentos deste tipo), como o único permitido para os corpos celestes.
3 Modelo cosmológico aristotélico: o geocentrismo.


O sistema geocêntrico de Ptolomeu, inspirado no universo Aristotélico, é, sem dúvida, uma obra de referência daquela civilização. Contudo, não abrangia a ideia de Platão de um universo infinito, a sugestão de Demócrito segundo a qual a Via Láctea seria um enorme aglomerado de estrelas, a proposta de Heraclides, segundo a qual a Terra deveria rodar sobre si própria, e a de Aristarco, (primeiro astrónomo heliocentrista da Antiguidade!), que propunha que a Terra orbitaria em torno do Sol.



Seguiu-se o declínio grego. A civilização romana ainda conseguiu produzir algum conhecimento (embora a um nível bastante inferior), e, aquando do seu declínio, a Europa é invadida pelos povos do norte e entra numa crise civilizacional profunda. Contudo, é um pouco mais a Oriente, na Síria, na Pérsia, e sobretudo em Constantinopla, que a civilização Islâmica desenvolve um trabalho importantíssimo na preservação e transmissão do conhecimento herdado da Antiguidade, (através da tradução das obras gregas), que possibilitou o acesso à cultura grega de um número muito maior de estudiosos. Foram os muçulmanos os principais responsáveis pelo despertar e sacudir das consciências na Europa.
Após um longo período de assimilação das obras gregas, as questões cosmológicas foram repensadas, e surge uma nova sede de conhecimento na Europa, completamente rejuvenescida. Surgem as Universidades.
Nos finais do século XIV, o universo medieval atinge o auge: era completamente antropocêntrico, santificado pela religião, sancionado pela filosofia, e racionalizado pela ciência geocêntrica aristotélica.
Por volta dos séculos XIV e XV assistimos então, a par da revolução de mentalidades que se deu na Europa, a um período de reflexão profunda sobre questões fundamentais que permitiu pôr em causa velhos conceitos e concepções cosmológicas, de forma sustentada, ao mesmo tempo que se procuravam novas alternativas.
No período que se vai seguir assiste-se a uma revolução global, iniciada com a proposta heliocêntrica de Nicolau Copérnico. Graças também a Giordano Brunon, e, mais tarde, aos trabalhos de Newton e Kepler, o geocentrismo vê-se definitivamente ultrapassado, e, a cada dia que passava, surgiam novos argumentos contra a física de Aristóteles.
4 A célebre luneta de Galileu.
É no século XVII que a luneta de Galileu vem alterar por completo o estudo dos astros. Algumas noites de observação com uma luneta, permitiram a Galileu obter uma qualidade e quantidade de dados sobre os corpos celestes, superior à de todos os seus antecessores. Observações essas que permitiram finalmente rebater princípios, com cerca de dois mil anos, que dominavam e estrangulavam tanto a astronomia como a cosmologia. A partir daqui, a astronomia ganhou ligações a muitas outras ciências, e a sua importância e evolução aumentou substancialmente.

Hoje, podemos dizer que vivemos na Época espacial, marcada pelas primeiras “aventuras” do Homem fora do nosso planeta. Ao longo do último século, a nossa visão sobre a globalidade do Universo alterou-se consideravelmente, e, para isso contribuíram, por exemplo, os avanços teóricos conseguidos na física e na matemática, a implementação de novas técnicas de observação e a possibilidade de missões espaciais com sofisticado equipamento de pesquisa, e não podemos esquecer a revolução ao nível do cálculo, que as emergentes ciências de computação permitiram efectuar.
Os avanços, a evolução, e os conhecimentos adquiridos através da astronomia têm vindo a revelar-se de enorme utilidade e importância para a sociedade e para as ciências, com aplicação nos mais diversos domínios do saber. No entanto, é importante referir que o sucesso das ciências associadas ao espaço exterior não se deve resumir ao mediatismo das missões espaciais. O seu peso histórico e conceptual é a prova da importância da astronomia no desenvolvimento intelectual da humanidade.
É óbvio que o futuro nos reserva muitas incógnitas. No entanto, e face à importância que a astronomia atingiu nos dias de hoje, dizemos, com a certeza possível, que esta importância não cessará de aumentar, e que o futuro da humanidade passará, indubitavelmente, pela astronomia.
Vivemos num Universo em contínua expansão, e sabemos que o Sol não é eterno. Embora o futuro seja sempre imprevisível, temos presente que a nossa espécie não poderá viver eternamente na Terra. Este facto, embora longínquo, não deixa de inquietar o espírito humano como qualquer outra questão de sobrevivência. É certo que, se humanidade desejar ultrapassar este problema, e dada a sua gravidade e amplitude, há ainda uma longa caminhada a percorrer.
Dada a complexidade desta problemática, seria um erro pensar que os problemas a resolver se resumem a problemas científicos e tecnológicos. É imediato perceber que este tipo de questões também colocará, inevitavelmente, problemas do domínio da filosofia, da cosmologia, e do foro ético; problemas a nível cultural, e eventualmente problemas teológicos, etc.; e nenhum deles terá certamente uma solução simples. A possibilidade (ou existência) de vida extraterrestre (um assunto que foi, durante muitos anos, repelido pela sociedade) será, sem dúvida, um importante foco de atenções.
O desenvolvimento científico e tecnológico dos nossos dias, a conquista do espaço, a divulgação sempre actualizada das observações astronómicas e das descobertas científicas em geral, estão na origem de uma curiosidade generalizada, de um fascínio pelo universo que hoje podemos constatar existir no cidadão comum. Toda esta informação lhe impõe também uma necessidade de formação ao nível das questões científicas, e em particular das que estão mais ligadas à astronomia e à cosmologia.

As ligações da astronomia, mas em particular da cosmologia, às questões mais fundamentais que sempre preocuparam o espírito humano, são evidentes. Hoje, tal como o Homem grego há 2500 anos, procuramos um conhecimento mais completo sobre o Universo; e fazemo-lo procurando responder às mesmas questões! O conhecimento que criarmos será informação fundamental para que a astronomia possa cumprir o seu papel decisivo relativamente ao destino da humanidade.

Jaime Sacchetti Verde

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